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  • Tyller Antunes

A SAGA EXAUSTIVA DE SER TRAVESTI E MULHER TRANS NO PAÍS QUE MAIS NOS MATA.

29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.



No dia 29 de janeiro de 2004, foi organizado, em Brasília, um ato nacional para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”. O ato foi um marco na história do movimento contra a transfobia e na luta por direitos. A data foi escolhida como o Dia Nacional da Visibilidade Trans.


Mas, primeiramente é preciso entender o significado de RESPEITO. O respeito é um dos valores mais importantes do ser humano e tem grande importância na interação social. O respeito impede que uma pessoa tenha atitudes reprováveis, autoritárias ou injustas em relação à outra.


Porém, infelizmente, vivemos num país onde praticar respeito, respeitar o próximo, ou até mesmo o simples ato de ser gentil é algo impraticável.


Eu sou a Tyller Antunes, tenho 28 anos, sou atriz, cantora, professora de inglês e mulher trans vivendo em São Paulo capital. Adoraria celebrar o mês de janeiro e dia da visibilidade trans, com festas, grandes risos e abraçando amigas, amigos e amigues, mas nossa realidade não nos permite esse acalento, essa comemoração. Viver no país que pelo 13º ano consecutivo segue liderando o ranking de países que mais mata a população transexual, é viver com medo e precisar estar sempre atenta à tudo e à todos. É uma saga exaustiva por sobrevivência, respeito e pelo simples direito à vida.


Você, leitor, sente a necessidade de refletir sobre o simples fato de sair de casa? E quando sai, sente medo de não retornar ou nunca mais ver seus amigos, família, pessoas queridas ou seu pet? Para nossos corpos o alarme do medo e do perigo está sempre ligado! Eu vivo na periferia de São Paulo, compreendo que sou uma mulher trans branca e até passável muitas das vezes, e mesmo assim me vejo apavorada pelo fato de injustamente, por puro ódio, preconceito, alguém tirar minha vida pelo simples fato de ser quem sou. Ainda assim, precisamos prosseguir, continuar, trabalhar, ir ao mercado, ir ao médico, usar transporte público, etc., dentro de um país que não nos garante o mínimo de proteção e acolhimento. Me pego muitas vezes pensando nas mulheres trans e travestis pretas que existem no Brasil, e o quanto deve ser desgastante necessitar estar pronta para enfrentar tudo e todos, tendo em mente que a cisgeneridade não está pronta para os nossos corpos ou para quem somos e que as pessoas se esquecem que, antes de qualquer coisa, somos seres humanos.


Anualmente, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) divulga um relatório com a compilação dos assassinatos e demais formas de violência contra pessoas trans no Brasil durante o ano anterior. Foi divulgado que 89 pessoas trans foram mortas no brasil, isso somente no primeiro semestre do ano de 2021. E ainda houveram 33 tentativas de assassinatos e 27 violações de direitos humanos.


É extremamente agoniante viver no Brasil com dados tão assustadores sobre uma comunidade que só luta pelo direito de existir e de ser quem é. Não existem órgãos, governos, sei lá o que, preocupados com as vidas de seres humanos trans. A ANTRA tem um trabalho tremendo para dar conta dos casos e números de pessoas T assassinadas no Brasil, além de exercer diversas outras funções em prol da comunidade.


Uma matéria feita em 2020 para o jornal Ponte, por Caê Vasconcelos (homens trans), mostra que 15 estados brasileiros e distrito federal se recusam a contabilizar violência contra LGBTs. Em números absolutos, segundo a ANTRA, São Paulo é o recordista nos assassinatos de pessoas trans, com 19 casos, seguido de Bahia e Minas Gerais com 16 assassinatos cada. O Ceará ocupa a quarta posição com 15 assassinatos e o Rio de Janeiro fecha o ranking com 7 assassinatos. Todos os estados registraram aumento em relação ao mesmo período do ano passado.


Falando sobre minha pessoa, já precisei fazer vários boletins de ocorrência por ameaças de morte e de espancamento, por ameaças de que iriam arrancar meu órgão genital, que iam mandar pessoas me bater até a morte, e outros. Destes boletins de ocorrência, em NENHUM dos casos eu recebi sequer um retorno da delegacia ou de um policial para saber se estou bem, se estou viva, se preciso de uma medida protetiva. Absolutamente nenhuma proteção nos é dada. Eu poderia estar morta e isso não mudaria muita coisa, eu só entraria para as estatísticas desse Brasil transfóbico.


”O dia da visibilidade trans é importante porque é um marco histórico social na nossa luta pela igualdade de maneira ampla e por nossas vidas enquanto símbolos re(existência). Existe socialmente o apagamento de nossas pautas, de nossa existência. Nós, pessoas transvestisgeneres estamos à margem pautando nossa sobrevivência.” (Yuri Cantizano)


Eu gostaria de estar aqui comemorando que pela primeira vez o Brasil não lidera o ranking de assassinatos a corpos transvestigeneres, afinal somos todos seres humanos e deveríamos já ter percebido que somos diversos, que o mundo é de todos e para todos, e que os incômodos sobre nossos corpos de nada mudará quem somos. Morre uma travesti hoje, amanhã várias outras nascem, e será sempre assim. Eu como professora e artista, gosto de usar minha voz e imagem para buscar a conscientização de pessoas cis que fazem parte do meu ciclo social.


Precisamos do apoio de vocês, pessoas cisgênero, para que haja a diminuição de mortes e assassinatos de seres humanos trans e travestis nesse país. Que esse dia 29 de janeiro, quando pessoas T precisam gritar por respeito, seja legitimado e escutado. A meu ver, não precisamos de aceitação, não precisamos que vocês nos amem, ou beijem nossos pés. Precisamos única e exclusivamente que nossos corpos sejam respeitados. Alguém precisar suplicar por respeito não diz muito sobre ela, diz sobre o quanto está cada vez mais fácil ser desumano, não se importar, não olhar o próximo com olhos de empatia, de entendimento e respeito. A desumanidade não pode vencer essa batalha exaustiva na qual nos colocaram. O amor deve vencer!



Aqui sugiro algumas ações e projetos de apoio à comunidade trans em São Paulo e que você pode apoiar:


@casachama_org – associação cultural de cuidados LGBTQIAP+ plural e fluida, que surgiu da necessidade de criar mais espaços de pesquisa, discussão e ação.


@arouchianos – casa de acolhimento LGBTQIAPD+ na região do Largo do Arouche.


@casaneoncunha – projeto de apoio a pessoas LGBTQIA+ em São Bernardo do Campo (SP). Atua como casa de acolhimento e clínica social.


@casaflorescer_ – casa de acolhimento para mulheres travestis e transsexuais.


@projeto.seforas – ação de inclusão religiosa e social de pessoas trans e travestis em situação de extrema vulnerabilidade social.


@empoderatrans – rede de empreendedorismo para pessoas trans do Brasil.


Estes são apenas alguns dentre os muitos coletivos e projetos para e com pessoas trans em São Paulo. Procure conhecer e apoiar também aqueles atuantes em sua cidade, bairro ou região!



Referências:

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/dia-da-visibilidade-trans-especialista-responde-duvidas-sobre-letra-t-da-sigla/


http://www.labcidade.fau.usp.br/29-de-janeiro-dia-nacional-da-visibilidade-trans/


https://antrabrasil.org/category/violencia/


https://ponte.org/15-estados-e-distrito-federal-se-recusam-a-contabilizar-violencia-contra-lgbts/


https://www.anf.org.br/dia-da-visibilidade-trans-e-a-sua-importancia/

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