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  • Maria Paula Veríssimo Carrera

BLACK FRIDAY

Atualizado: há 2 dias

“A Black Friday é uma farsa. É mais uma maneira de fazer os cidadãos pensarem que estão encontrando uma barganha, quando na verdade estão caçando uma ilusão. A Black Friday é sobre a pressa, a velocidade, a compulsão. Na Fashion Revolution, pedimos que você seja cuidadoso e compre com propósito.”

(Orsola de Castro, cofundadora e diretora criativa da Fashion Revolution)



A Black Friday surgiu nos Estados Unidos e acontece sempre na quarta sexta-feira de novembro logo após o dia de ação de graças, marcando o início da fase de compras para as festas de final de ano. Nesse dia os descontos podem chegar a 90% e os consumidores são encorajados a “aproveitar as ofertas”.


Diversos outros países têm sua própria Black Friday ainda que muitos deles não celebrem o dia de ação de graças ou até mesmo saibam de sua existência.


O primeiro país a acrescentar a Black Friday em seu calendário comercial foi o Canadá ao final dos anos 2000. Os canadenses cruzavam a fronteira com os EUA e iam às compras no país vizinho. Por esse motivo, os lojistas canadenses passaram então a oferecer suas próprias liquidações no mesmo dia da Black Friday americana, ainda que o feriado de ação de graças canadense acontecesse um mês antes.


Por aqui, a primeira Black Friday aconteceu dia 28 de novembro de 2010 predominantemente no ambiente virtual (e-commerces) e, posteriormente nas lojas físicas. Hoje é a segunda data de maior faturamento do comércio no ano, perdendo apenas para o Natal.


== Porque a data cai na quarta sexta-feira de novembro??


Porque tradicionalmente a Black Friday acontece no dia seguinte ao feriado de ação de graças nos EUA. O feriado foi comemorado na última quinta-feira de novembro entre meados do século XIX e início do século XX. Como alguns meses tem apenas quatro quintas-feiras e outros tem cinco quintas-feiras, o feriado de ação de graças podia cair na quarta ou quinta quinta-feira do mês de novembro. A Black Friday seguia essa oscilação. Em 1939, a última quinta-feira de novembro foi também o último dia do mês, o que gerou preocupação entre os lojistas pois, segundo eles, o período de compras para as festas de final de ano, seria curto. Dessa forma, foi criada uma petição para que o dia de ação de graças fosse adiantado uma semana. A petição foi autorizada pelo então presidente Franklin D. Roosevelt e a partir de 1941, o feriado passou a ser comemorado sempre na quarta quinta-feira de novembro para que os consumidores tivessem uma semana extra de compras.


== Você sabe como surgiu o termo Black Friday?


Hipótese 1:

Ainda que o termo Black Friday (literalmente “Sexta-Feira Negra” em inglês) esteja hoje associado ao maior dia de compras dos Estados Unidos, os primeiros registros históricos do uso do termo fazem referência a um evento ocorrido no dia 24 de setembro de 1869. Jay Gould e James Fisk, dois especuladores americanos, tentaram manipular e tomar o mercado de ouro na Bolsa de Nova York com o intuito de fazer o preço subir. O Governo americano decidiu intervir e com isso aumentou a oferta de ouro no mercado. Como consequência, o preço do ouro caiu significativamente e muitos investidores perderam fortunas.


Apesar de esse ser o primeiro registro do termo Black Friday, não se sabe se há relação com o evento.


Hipótese 2:

A Newsletter da Factory Management and Maintenance sobre mercado de trabalho nos EUA reivindica a autoria do termo Black Friday. Em 1951, uma circular da empresa destacou a incidência de profissionais ”supostamente doentes” na sexta-feira após o dia de ação de graças.


"A síndrome da sexta-feira após o Dia de Ação de Graças é uma doença cujos efeitos adversos só são superados pelos da peste bubônica. Pelo menos é assim que se sentem aqueles que têm de trabalhar quando chega a Black Friday. A loja ou estabelecimento pode ficar meio vazio e todo ausente estava doente", relatava a circular.


Hipótese 3:

O termo ganhou popularidade quando começou a ser usado por policiais da Filadélfia indignados com o trânsito causado pelo fluxo de consumidores nesse dia. Lojistas insatisfeitos com a associação de suas empresas ao engarrafamento e poluição, tentaram, na década de 60, mudar o termo para Big Friday, mas o nome não emplacou.


Ainda que para alguns a Black Friday tenha um sentido positivo (será? continue a leitura), todos as hipóteses de origem do termo tem conotações negativas.


== Motivos para não participar da Black Friday


É importante deixar claro que nós da Mary Very não somos contrários ao consumo, afinal de contas somos uma marca de moda. Na verdade, somos contra os truques de marketing que mascaram os preços, e realidades que estão diretamente relacionadas às mudanças climáticas e as mazelas sociais, como superprodução, consumo excessivo, exploração e desperdício. Somos a favor do design consciente, da compra com propósito e com inteligência.


O Brasil é o 4º maior produtor de roupas do mundo (1º China, 2º Índia, 3º Paquistão | Fonte: ABIT) e produz 85% do que é consumido nacionalmente. Cada um de nós, seja consumidor ou empresa, tem responsabilidade direta pelos impactos causados pela produção no nosso país. E nós da Mary Very temos como dever enquanto empresa de moda trazer reflexões sobre esses impactos.

Alguns dados:


1. Só em São Paulo são descartadas 26 toneladas por dia de resíduo têxtil que vão parar em aterros sanitários (Fonte: Loga, 2011);

2. O Bom Retiro (bairro de São Paulo) possui 1200 confecções e gera 60% de todo o resíduo da capital (Fonte: Sinditêxtil-sp, 2013);

3. No Brasil, 175 toneladas de resíduo têxtil são descartadas em aterros sanitários por ano; sendo que 80% desse resíduo poderia ser aproveitado ou reutilizado (Fonte: Sinditêxtil-sp, 2013);

4. 37 marcas brasileiras já foram autuadas em flagrante com trabalho análogo à escravidão - você realmente confia nas marcas das quais você compra? (Fonte: Aplicativo Moda Livre; Ong Repórter Brasil);

5. No mundo inteiro, 250 milhões de crianças trabalham para a indústria têxtil - já pensou que a roupa que você está usando agora pode ter sido feita por uma criança? (Fonte: OIT);

6. Trabalhadores no Camboja, Sri Lanka, Bangladesh e até mesmo em cidades como Los Angeles (45 mil nesta cidade, de acordo com o Garment Worker Center) continuam trabalhando durante a pandemia do covid 19 sem as medidas de segurança ou os equipamentos necessários e, não recebendo o pagamento justo, muitas vezes não sendo pagos de maneira alguma - provavelmente é de algum desses lugares (entre muitos outros) que vem as roupas de Fast Fashion também presentes no Brasil e que exploram a Black Friday;

7. O impacto ambiental desta forma de produção é absolutamente insustentável para as pessoas e para o planeta. As cidades onde muitas roupas e tecidos são feitos (e que chegam aqui no Brasil sim, seja como matéria-prima ou produto acabado), como Erode, na Índia, têm as maiores taxas de câncer, infertilidade, rios poluídos, terras agrícolas corroídas. (Fonte: Fanzine Fashion, Environment, Change; Fashion Revolution);


Entre outros. A listagem é longa! Mas o que isso nos mostra?



A Moda impacta de três principais formas:


1. Ambiental: retiramos recursos finitos do planeta sem repor e geramos uma quantidade de resíduos gigantesca que é descartada dentro do próprio planeta;

2. Social: cada vez mais percebemos a diferenciação social através das roupas; a contínua exploração de pessoas que trabalham em condições degradantes pela única e exclusiva finalidade de se obter mais lucro em cima das peças;

3. Comportamental: consumismo (a doença da sociedade); insaciedade de compra; a busca por preencher um "buraco" e a falsa promessa de felicidade; pessoas desconectadas de si mesmas.


"Quanto mais desconectados de nós mesmos, quanto mais a gente não se sentir pertencente, mais a gente procura o consumo para pertencer"

(Marina, De Luca Moda Limpa)


Mas calma! Não é correto comprar na Black Friday por uma questão de acessibilidade?


É real que nem todos os descontos estimulam o consumo irracional. É real que muitos consumidores podem aguardar a Black Friday para fazer a compra de um produto essencial específico como uma nova TV. É real que as temporadas de vendas permitem que muitas pessoas tenham acesso a produtos, que de outra forma, não seriam acessíveis a elas. Nesse caso, tudo bem!! Mas vamos refletir …


Hoje é a Black Friday! Você já adquiriu algum produto? Você realmente precisa desse produto ou comprou porque estava com "bom desconto"? Ou porque simplesmente seguiu o comportamento padrão esperado para o dia de hoje sem refletir sobre o real significado disso?


Que tal pensar duas vezes antes de adquirir uma bolsa, uma roupa, um acessório, mais um dos vários produtos de skincare que provavelmente atingirão a data de validade dentro do seu armário? Quantas peças você tem que não usa? E aqui quero deixar claro que eu me incluo, viu! À medida que escrevo esse texto, sinto um vazio enorme e uma vontade gigantesca, cada vez maior, de mudar como pessoa e evoluir com a Mary Very.


O que estamos fazendo de errado? É urgente uma revolução na Moda!




Referências:


FLETCHER, Kate. GROSE, Lynda. Moda & sustentabilidade: Design para mudança. 1º Edição. Brasil: Editora Senac São Paulo, 7 março 2012.


https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38087960


https://www.fashionrevolution.org/usa-blog/reasons-to-not-participate-in-black-friday/


https://www.modamodifica.com/novidades-na-moda/2018/11/26/por-que-essas-marcas-boicotaram-o-black-friday


https://modalimpa.com.br/6-filmes-e-documentarios-de-moda-que-voce-tem-que-ver/


https://www.fashionrevolution.org/blackfriday/


https://www.fashionrevolution.org/cop26-and-fashion-what-happens

https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2016/06/escravos-da-moda-os-bastidores-nada-bonitos-da-industria-fashion.html


https://sinditextilsp.org.br/home/


https://www.ilo.org/brasilia/conheca-a-oit/lang--pt/index.htm


Filme sobre o futuro da moda ‘The Next Black’: https://www.youtube.com/watch?v=XCsGLWrfE4Y


Documentário sobre moda ética ”Do we change it?’: https://www.youtube.com/watch?v=BMisBIlRmB4


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